Na cerimônia japonesa, para tomar a bebida deve-se prestar atenção em tudo, inclusive em si mesmo
TEXTO Hanny Guimarães IMAGEM gUi Mohallem
O ambiente vazio está cheio de significados. É assim o aposento reservado para sorver o chá na cultura japonesa. O lugar não pretende ser mais do que uma simples cabana, mas é fruto de observações cuidadosas sobre a arquitetura clássica do Japão. A simplicidade está em todo canto e em cada ato revela-se um conceito da tradicional Cerimônia do Chá, ritual iniciado por monges zen-budistas que, de passagem pela China e com a necessidade de se manterem despertos durante as meditações, levaram a bebida ao país nipônico e adaptaram o rito a seus costumes.
Como exceção na "morada do vazio" - nas palavras do autor de O Livro do Chá, Kakuzo Okakura -, somente um arranjo floral chamado de chabana e uma caligrafia que leva o nome de chodo estão dispostos em um nicho para edificação dos praticantes. Fica também um fogareiro que prepara a água da bebida. Antes da sala há um jardim, dando pistas da tranquilidade que vem a seguir. No início do culto - para os japoneses o momento é quase religioso -, os convidados se acomodam nos tatames e aguardam a entrada do anfitrião que irá preparar o elixir de suas vidas no encontro que, já se sabe, é único. Com a pessoa que irá conduzir o evento, entram em cena também os utensílios peculiares para a preparação do chá. Natsumê, chasen, hishaku, chashaku, fukusa, chakin, tana e chawan... A cerimônia pede calma, até para alguém não ficar perdido na tradução. Respectivamente, as ferramentas se apresentam: pote para guardar o chá, batedor de bambu para misturar chá e água, concha de bambu para a água, colher de bambu para pegar o chá, pano de seda para purificação, pano de linho usado para higienização dos apetrechos, bandeja e tigela para o chá.
Além dos muitos objetos, o natsumê guarda o protagonista do encontro. O chá-verde moído chamado matcha é o tesouro da cerimônia. Sem ele não há vazio que se preencha.
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