POR Flavio Federico* ILUSTRAÇÃO Paula Rúpolo
Sempre gostei de porco. Não porque eu seja de família italiana ou porque o Verdão esteja indo bem. Quer dizer, pode ser um pouco isso, mas a verdade é que acho incrível aquele animal chafurdado na lama feliz da vida por estar sujo até o focinho. Tem gente que até tem porco de estimação, como o do George Clooney que morreu com mais de 150 quilos.
Apesar de gostar de vê-los se divertindo, gosto mais de encontrá-los no meu prato; sejam inteiros com uma maçã na boca ou em pedaços em uma suculenta feijoada. Das bistequinhas do virado à paulista e leitão à pururuca aos clássicos "ribs" americanos com molho barbecue, existem centenas de preparos. Os que mais me atraem são aqueles assados por horas a fio e dos quais podemos comer até os ossos de tão macios e tenros. Isso tudo acompanhado de umas batatinhas puxadas no alecrim e sal grosso.
Voltando às minhas raízes italianas e da casa da nona, me lembro de alguns pratos de porco tão simples e rústicos que até eu fazia. Temperar, botar no forno e esperar. Essa forma despretensiosa é que faz os pratos italianos serem tão incríveis e saborosos em qualquer lugar do mundo.
Hoje, em quase todos os restaurantes do Brasil existem pratos à base de porco; uma vitória grande. Não sei se existe algum lugar em nosso território que faça tudo com porco. Havia um próximo a São José do Rio Preto (SP) chamado Porcada. Tinha costelinhas, chouriço, linguiças, torresmos e tudo o mais que se pode fazer com o bicho. Como isso foi lá no início dos anos 1990, não sei se ainda existe.
Costumo dizer que alguns negócios só funcionam mesmo em Nova York. Lá tem tanta gente de tantos lugares do mundo que há espaço para todos os tipos de negócio. Em uma recente viagem que fiz para lá conheci o incrível Porchetta. Nome de um prato típico da cozinha romana à base de porco, claro. Neste caso, aromatizado e temperado com ervas, alho, especiarias e assado por várias e várias horas até que a pele fique crocante e o interior levemente rosado e muito suculento. É um lugar minúsculo sem mesas e com um cercado de madeira na calçada com um banco; lembra até um chiqueirinho. As pessoas comem de pé ou apoiadas em um aparador. O sanduíche é incrível e o carro-chefe. A fila na hora do almoço dá a volta na quadra e a espera é longa. Um pão extremamente fresco e crocante é recheado com tiras da porchetta que ficam descansando em uma vitrine aquecida em cima do balcão. Alguns pedaços da pele crocante também são colocados para uma alegria extra.
Não dá para descrever o sabor e a textura da carne. Apenas consigo dizer que foi o melhor sanduíche de porco que comi na minha vida. As especiarias e as ervas são tão intensas que não há como se concentrar em mais nada enquanto se come. Para acompanhar, como se precisasse, pedimos um prato de batatas assadas com pontas queimadas, que são misturadas às aparas dos cortes dos sanduíches e servidas com batatinhas em bolinha crocantes feitas com a casca. Vale cada centavo se puder passar por lá (110 East 7th street, www.porchettanyc.com). Aliás, os preços são muito pequenos. O sanduba custa U$ 10,00 e é o mais caro do cardápio. Tenho certeza de que em algum cantinho do Brasil há um lugar como este. Se alguém souber, por favor me avise. Um abraço e até a próxima.
*Flavio Federico é chef-confeiteiro há mais de quinze anos e proprietário da Sódoces, em São Paulo (SP) (www.sodoces.com.br).