Adélcio Piagentini desenvolveu o descascador de café cereja. Os produtores custaram a apostar na ideia. Hoje, existe até categoria exclusiva em premiações para o grão que passa pela máquina
TEXTO Hanny Guimarães FOTOGRAFIA Alexia Santi
Eu chamei o João Staut para participar desta conversa com a gente. O João é um grande amigo e faz parte da nossa história. Se eu esquecer alguma coisa, ele me lembra. Eu me formei em Química e trabalhei em algumas empresas antes de ir para a Pinhalense. Eu estava solteiro e morando em São Paulo, ótimo, não é?! Nem pensava em voltar para o interior. Terminei o curso e meu pai e os sócios dele me ofereceram uma oportunidade na empresa. Eu aceitei. Sou filho de um dos fundadores, o Ovídio Piagentini. Ele era muito criativo. Sempre digo que ele e o Dimas Hipólito foram meus professores.
Na Pinhalense, trabalhei no sistema de Tempos e Métodos dentro da fábrica, mas depois fui conhecer o produtor no campo. Fui para a área de vendas. Em 1984, assumi o cargo de diretor técnico industrial e começamos a desenvolver alguns projetos. Depois de cinco anos na função, os produtores José Perez Romero e Tarcísio Loyola trouxeram uma grande ideia para tentarmos trabalhar. O Romero encontrou um manualzinho, um boletim técnico do IAC que falava sobre os resultados de estudos teóricos e práticos do processo do café cereja descascado. Então, eles apontaram para o folheto e disseram: "Nós precisamos de uma máquina que faça isto, vocês aceitam o desafio?".
E nós topamos.
Havia muito ceticismo em relação a essa máquina. Nós fomos para muitos lugares para expor a tecnologia aos produtores e a pergunta que sempre nos faziam era: "Por quanto nós vamos vender este café?" Os produtores da época produziam grandes quantidades sem precisar ter qualidade. Nós mudamos isso totalmente com uma visão de cafés especiais. Montamos em 1995 um caminhão Chevrolet D40 que era vermelho e por isso o denominamos de Caminhão Cereja. Nele, ia um conjuntinho de máquinas com um Lavador Separador, um Descascador de Cereja... Pintamos as laterais bem bonitas com a frase "Conheça o Sistema Cereja Descascado". Rodamos em muitas propriedades. O João Staut chegou a dar palestra em cima dele, no meio da fazenda.
Foi uma evolução natural não só do equipamento, mas da mentalidade do produtor. Da nossa parte foi muita intuição de apostar em um negócio que caminhava na contramão da história. As dificuldades foram inúmeras, mas em especial a resistência do produtor de comprar a ideia, de mudar, porque o produtor tem aquela ideia de que nasceu debaixo de um pé de café e sabe tudo do grão. Mas estávamos bastante convictos com o projeto.
No primeiro ano, de 1990-91, vendemos 16 máquinas. No segundo, umas 40. E no terceiro ano foram mais de cem. No quarto ano o negócio começou a se expandir. A gente não tinha noção do impacto que causaria. Hoje, a sensação de ver este equipamento em uma fazenda, funcionando e dando resultados positivos para o produtor, é gratificante. Você tem que aceitar os desafios para poder plantar o futuro. Tem que acreditar! O Descascador de Cereja foi um passo. Aos 69 anos ainda continuo na fábrica, criando junto com os técnicos equipamentos que irão auxiliar a vida do produtor.
PARA SABER MAIS
Pinhalense Máquinas Agrícolas - Rua Honório Soares, 80 - Espírito Santo do Pinhal - São Paulo (SP) - (19) 3651-9200