POR Antonio Prata* ILUSTRAÇÃO Paula Rúpolo
No iPod, chama-se shuffle. Em outros aparelhos, é random. Segundo o Oxford Universal Dictionary, shuffle significa "a mudança de uma posição para outra, um intercâmbio de posições". Embaralhar as cartas pode ser o ato de "shuffling playing cards". Já random é algo "não levado ou guiado numa direção precisa; sem propósito ou meta".
Como sabem todos os que operaram um aparelho de som nos últimos vinte anos, as duas palavras denominam aquela função que, uma vez acionada num CD ou MP3 player, faz as músicas serem tocadas não na ordem em que estão dispostas no disco, mas - ham, ham - ao acaso.
Será preciso explicar a razão do meu ham, ham? Ou já não sabem, todos os que nos últimos vinte anos apertaram os botões shuffle ou random de seus aparelhos de som, que a seleção é qualquer coisa, menos aleatória? A escolha das músicas é deliberada e precisa, às vezes sutil, às vezes escancarada, mas sempre muito bem pensada. Por quem? Ora, por um diabinho, uma espécie de saci minúsculo, que no passado morava nos redemoinhos dos rios e hoje vive dentro dos aparelhos de som, entre as partículas de silício dos microchips.
Tenho em meu iPod algo em torno de 6 mil músicas. Como explicar, senão pelas artimanhas desses sacis eletrônicos, que, em meia hora, o shuffle escolha cinco músicas que eu escutei sem parar durante uma viagem à Bahia em 1996? Ou que, numa corrida na esteira, de 40 minutos, ele toque três versões de Like a Rolling Stone, uma do Bob Dylan, uma do Hendrix, outra dos Stones? São 6 mil músicas! Só uma mão oculta e idiossincrática seria capaz de tais seleções.
O diabo que vive no microchip, como haverão notado vocês, tem um humor bem pouco estável. Há dias em que ele nos brinda com sequências matadoras, de que só alguém que fosse ao mesmo tempo nosso psicólogo e DJ seria capaz. Outras vezes, contudo, ele quer nos sacanear. Puxa duas ou três faixas que nos acalentaram diferentes pés na bunda, no passado, depois emenda com um axé que você só pôs no iPod para correr (aquele tipo de música que, quando vem um pessoal em casa, a gente torce pro shuffle devil não escolher - e ele escolhe). Mais tarde, você vai correr, ele manda só Leãozinho, Chega de Saudade e Cat Power. Ah, Exu binário! Que forças ocultas te movem?!
Já disse alguém por aí: "Coloca seu iPod no shuffle e te direi quem és". Mentira. Essa falsa aleatoriedade é o gosto do microssaci, não o nosso. Acho que os gênios das ciências exatas deveriam se juntar aos rabinos cabalistas para estudar shuffles e randoms. Talvez as respostas sobre Deus estejam, de fato, como creditam esses hebreus matemáticos, por trás das letras de Yahweh. Mas o diabo se revela, não tenho a menor dúvida, entre as músicas de um iPod.
*ANTONIO PRATA é escritor.