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POR Flavio Federico* ILUSTRAÇÃO Cleiton Oliveira

Qual foi o último grande negócio comercial no futebol mundial envolvendo um goleiro? Difícil? Talvez porque os grandes negócios girem sempre em torno dos atacantes. O que isso tem a ver com confeitaria? Calma, já vou chegar lá.

Quantos chutes a gol um milionário atacante faz durante um jogo? Quantos balançam as redes? O raciocínio é fácil. Não importa quantos chutes o atacante dê; a maior parte das bolas não entra no gol porque lá tem um cara preparado para dar tudo de si e fazer uma coisa que ama e para a qual é pago: pegar as bolas. Esse é o goleiro. Se o atacante chuta dez vezes ao gol e o goleiro pega nove, de quem foi o aproveitamento melhor na partida?

No final do jogo, o time vencedor fica feliz com seus atacantes, mas não fala do confeiteiro, digo, goleiro, que não deixou entrar as bolas do adversário. Eles só são lembrados nos pênaltis em final de campeonato. Será que não fazem nada antes disso? Percebam, então, que na gastronomia é a mesma coisa. Apesar de os confeiteiros fazerem muito, o cozinheiro sempre leva a melhor.

Já trabalhei muito e em diversos lugares e lembro que era um dos primeiros a chegar e o último a sair. Como as preparações de confeitaria são mais demoradas e existe um "vácuo" entre sentar à mesa e pedir a sobremesa, ajudava os cozinheiros na hora do serviço (soltar prato, botar molho, etc.). Ao final do último prato os cozinheiros se mandavam e eu ficava sozinho fazendo minha parte.

Poucos cozinheiros se preocupam com os confeiteiros, mas reclamam se algo não estiver de acordo. Sobremesas em restaurantes devem ser tão boas quanto os pratos. Sobremesa não é só um "docinho". Se não for boa, o cliente vai xingar o jantar todo e se for ótima vai enaltecer a todos. O final da refeição é muito importante e devemos nos preocupar com isso e exigir um encerramento digno. O problema são os egos, pois todos querem os louros. Para que dividir as realizações com todos da equipe, incluindo o carinha que só sabe fazer bolo e musse? Essa é a visão de quem não conhece a fundo o árduo, cansativo, demorado e preciso trabalho de um confeiteiro. É o mesmo com os goleiros. Ou você ainda acha que ele só fica no gol?

Existem muito menos confeiteiros do que cozinheiros. A profissão não é fácil e requer muita dedicação, amor e renúncias que poucos suportam ou querem aguentar. Porém, para ajudar, nós, clientes, devemos exigir o máximo de qualidade nas sobremesas. Existem muitas profissões importantes e vitais, mas que são deixadas de lado ou menos respeitadas. Por mais que o cozinheiro tenha boa vontade, ele não estudou para ser confeiteiro.

No final, a história é a mesma: trabalhamos para a alegria dos clientes e não para nossos egos. Porém, justiça seja feita: todos merecem receber o respeito proporcional à sua dedicação e contribuição. Vamos cobrar uma sobremesa melhor nos cardápios e a presença dos confeiteiros nos restaurantes. Comecem a perguntar: Cadê o confeiteiro?

Abraços e até a próxima.

*Flavio Federico é chef-confeiteiro há mais de quinze anos e proprietário da Sódoces, em São Paulo (SP) (www.sodoces.com.br).

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Edição 28 Junho / Julho / Agosto 2010
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