DETALHES E AMOR AO PRODUTO
Na maioria dos bares e restaurantes, o espresso é soberano. Mas nem sempre
ele chega à mesa com a maestria que esperamos. O café tem sido desprezado, como
diria a barista Tatiane Rodrigues, da empresa campineira Cafemaq: "Eu tenho a
sensação de que o café é tratado com desleixo. Mas é ele que finaliza a refeição
e isso compromete a qualidade do restaurante".
A repórter de gastronomia do Guia da Folha e amante da bebida Luiza Fecarotta
percebe que alguns restaurantes já passaram a investir numa marca de café de
melhor qualidade, mas ela ainda encontra muitos cafés ruins. "Em geral eles vêm
na temperatura errada, com a crema rala e aquele amargor acentuado de uma
extração malfeita." Cristiana Couto, também jornalista da área e dotada de um
paladar atento, diz ser "raríssimo" encontrar um café bom: "Está sempre aguado,
frio e subextraído ou superextraído".
Isso acontece porque investir só no pó de café não é suficiente. É preciso
ter funcionários capacitados e equipamentos de ponta que garantam o máximo
potencial do produto. Aqueles tais Ms dos italianos... A máquina, por exemplo,
ainda é um problema. Reinaldo Bongiovanni, representante da LaCimbali, afirma
que um número cada vez maior de estabelecimentos tem procurado a empresa, "mas a
qualidade depende da cabeça do empresário; alguns só olham mesmo o preço".
Segundo Paul Elmar Germscheid, representante da La Marzocco, "quem acha que não
vale a pena é porque não fez a conta". O café pode ser até fonte de receita.
Uma boa máquina depende da demanda de pedidos e do público-alvo do
estabelecimento. Se o local oferece um serviço à la carte e especial, o ideal é
oferecer espressos preparados numa máquina manual, por um funcionário habilitado
a usá-la, que garanta a máxima qualidade da bebida.
"A pressa atrapalha! O cliente não vai reclamar se o
pedido demorar um pouquinho mas o espresso vier quente, com a crema boa; e o
cappuccino com um latte art que o faça perceber que o barista teve um cuidado
especial com ele."
Tatiane Rodrigues,
barista há 5 anos
Mas quando não existe essa pessoa experiente por trás, todo o investimento
vai por água abaixo. Espressos que deveriam ser extraídos de 20 a 30 segundos
são obtidos em 10; um curto e um carioca são servidos iguais; nem o aroma de
fumaça e um buraco na crema alertam para um defeito no produto. Reinaldo critica
a falta de uma pessoa, pelo menos, dedicada à função: "Muitos colocam a máquina
na copa ou até voltada para o salão, então normalmente é algum funcionário da
cozinha que tira o café ou os próprios garçons". Mas se não há alguém
responsável, os problemas aparecem. "O garçom, quando faz o pedido, não fica
esperando a bebida ficar pronta. Quando ele vai buscar a xícara, o café já
começou a se deteriorar visualmente e sensorialmente, ou seja, vai perdendo a
cremosidade e começa a esfriar."
Ainda assim, o barista não figura nos quadros de funcionários de quase nenhum
restaurante. Nem mesmo nos que prezam por chefs de excelência, pâtissiers que
garantam sobremesas de sucesso ou sommeliers que ofereçam o melhor vinho. O
café, em vez de finalizar a refeição com um aftertaste incrível, anda deixando
uma tristeza amarga na boca.
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