POR ANTONIO PRATA*
Ilustração Cleiton Oliveira
Ontem, tive uma grande pequena felicidade: comprei uma televisão de plasma. Levei-a comigo para casa, dei a antiga TV para o porteiro - uma geringonça preta, pré-tela plana, comprada na distante Copa de 94 -, atraquei-me com furadeira, buchas e parafusos, pendurei a telona na parede e, tarde da noite, cansado e exultante, assisti ao Janela Indiscreta - agora, com 42 polegadas, mais indiscreta do que nunca.
Hoje, acordei animado, querendo contar às pessoas a novidade, assim como quem compartilha uma promoção no emprego, um honroso segundo lugar no campeonato de sinuca do bar da esquina, a cadela que pariu três filhotes e outras alegrias comezinhas. Peguei o telefone, comecei a pensar em alguém para ligar e, depois de alguns segundos, me dei conta: é difícil comemorar uma tevê de plasma.
Imaginei-me contando aos meus amigos intelectuais: eles não dariam bola. Pior, olhariam-me torto. Não pega bem, entre os meio intelectuais, meio de esquerda, entusiasmar-se com a aquisição de bens materiais. Coisa mais pequeno-burguesa... Sem contar que a televisão é um aparelho que desprezam, só toleram num quartinho nos fundos, para assistir ao futebol ou, vá lá, a um Roda Viva com o Umberto Eco.
Quis então ligar para meus amigos mauricinhos. Eles me entenderiam, afinal, também têm tevê de plasma, provavelmente até me dariam dicas de programas em alta-definição ou de novas tecnologias de DVD. Tirei o telefone do gancho, mas o coloquei de volta. Não pega bem, entre os mauricinhos, comemorar a aquisição de bens materiais. Coisa mais classe-média... Sem contar que tevê de plasma eles compraram assim que surgiu e não consideram nenhum luxo, mas um item básico da vida contemporânea.
Pensei em ir ao bar da esquina contar à turma da sinuca. Não são nem intelectuais nem mauricinhos, e com certeza entenderiam minha alegria com a nova aquisição. Mas seria exatamente esse o problema! Ia parecer que eu estava querendo me mostrar superior, tentando instaurar a inveja, quem sabe até pensassem que era ressentimento por ter perdido a final do campeonato pro Leandrão, semana passada.
Desisti. A televisão é um prazer solitário. Quando receber uma promoção, tiver de dar os cachorrinhos ou conseguir, finalmente, o primeiro lugar no campeonato de sinuca, faço um churrasco aqui em casa, chamo todo mundo e, ao passarmos pela sala, se alguém notar a famigerada, direi, como quem não quer nada: "A tevê de plasma? Pois é, comprei outro dia... Alguém aí aceita uma cerveja?"