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ILUSTRAÇÃO FERNANDO SCIARRA


ANTONIO PRATA*

Como naquele domingo, 2 de novembro, todos os olhos estavam voltados para a eleição americana, ninguém deu bola para uma materiazinha perdida no meio da seção de esportes do The New York Times: "A verdade sobre o alongamento". Agora que Obama foi eleito e o mundo respira aliviado, contudo, talvez seja a hora de encararmos o fato: depois de condenar o ovo, o sol, o sal, o açúcar, a manteiga e os carboidratos, os cientistas acabam de chegar à conclusão de que o alongamento é uma coisa terrível. Pelo menos esse alongamento que ainda é recomendado por professores de educação física e instrutores de academia, chamado pela matéria de "alongamento estático": estica o músculo, segura, sofre até não poder mais e depois solta, aliviado como o crente depois da penitência.

Aquecer-se dessa maneira antes dos exercícios não só não previne nenhuma lesão como diminui em 30% a potência muscular. Confesso que me senti traído com a notícia. Eu, que corro três vezes por semana há uma década e, antes e depois de cada corrida, fazia o alongamento cheio daquele egoísmo cívico que acompanha as atitudes saudáveis, fiquei com cara de tacho, como se tivessem pego o padre de minha congregação numa rede de pedofilia. Quem vai me restituir as horas, os dias que passei tentando tocar o chão com as palmas das mãos, ou equilibrando-me ridiculamente sobre uma perna, enquanto puxava a outra para cima, em direção à bunda? Ninguém, meus caros. A vida é curta e parece-me ainda mais curta, agora, subtraídos os momentos que gastei esticando-me.

A matéria não nega o alongamento como um todo, menos ainda o aquecimento, mas afirma que as duas coisas devem ser feitas em movimento. Com ilustrações, ensina alguns heterodoxos exercícios: chutes para o ar, bizarras contorções no solo e, meu preferido, o "Homem-Aranha", que consiste basicamente em ficar de quatro e sair rastejando por aí. Parece que, na terra de Obama, a moda começa a pegar e jogadores de tênis e corredores têm chocado o público em provas e partidas com suas performances no aquecimento.

Está certo, está certo, a ciência está aí para substituir as verdades de ontem por outras que ficarão obsoletas amanhã, mas não posso deixar de sentir certa insegurança diante de tanta mudança. Depois do ovo, do sol, do sal, do açúcar, da manteiga, dos carboidratos e do alongamento, não duvido nada se qualquer dia desses eu abrir o jornal e descobrir que a origem de todas as nossas doenças é o fato de bebermos água. Por mim tudo bem, desde que, no mesmo estudo, liberem a cerveja. Do jeito que a coisa vai, não duvido nada...

*ANTONIO PRATA é escritor. Blog www.blogdoantonioprata.blogspot.com

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Edição 28 Junho / Julho / Agosto 2010
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