
Se a cerveja apareceu na história da humanidade há mais de 6 mil anos antes do nascimento de Cristo, a profissão de mestre cervejeiro é basicamente contemporânea. Provavelmente a fermentação de grãos de cevada ocorreu espontaneamente, mas, também muito provavelmente, alguém bebeu esse líquido amargo e começou a curá-lo, examiná-lo. E os mais curiosos começaram a misturar outros ingredientes, como mel e ervas aromáticas, ao lúpulo. A produção do malte passou a ser proposital, vigiada, com finalização gastronômica. Surgiram, então, em diversas civilizações antigas, por aprendizado ou experimento, os mestres cervejeiros.
Em 2008, apesar da constante evolução, os princípios não são diferentes: o ofício requer disciplina, curiosidade e respeito à tradição. A profissão se aprende com outros mestres mais experientes, que já carregam no paladar uma história degustativa. Mesmo que a quantidade de equipamentos e referências de estudo se tenha multiplicado, a produção de cerveja leva em conta, principalmente, três de nossos sentidos básicos: paladar, olfato e visão.
Para Katia Jorge, formada em química e com mestrado em Engenharia Química na Universidade Federal do Rio de Janeiro, "o processo de produção de cerveja é uma arte. Na medida em que vamos estudando os diferentes estilos da bebida, a variedade de leveduras e possibilidades de utilização de diferentes matérias-primas, ela vai se tornando cada vez mais complexa e viva". Toda essa complexidade tem um motivo: a cerveja é consumida depois de passar por uma fermentação e o mosto (resultado da mistura do malte triturado com água) deve ser muito bem-cuidado desde a formulação da bebida para que nada dê errado, pois, após o processo de fermentação e, facultativamente, da filtração, nada mais acontece, a cerveja está pronta para o consumo, diferentemente das bebidas destiladas. Mas apesar de ser uma bebida milenar, ela "tecnologicamente não parou no tempo; existem inúmeros institutos de pesquisa pelo mundo e muitas cervejarias dinâmicas e inovadoras", avisa Katia, conhecida pela produção e degustação em empresas como Brahma e, mais recentemente, Devassa.
ENSINAMENTOS IMPORTANTES
Cilene Saorin tem 36 anos e 15 de profissão. Brasileira com formação internacional, mora em São Paulo e é apaixonada por cerveja: trabalhou para Brahma, Antarctica, Petrópolis, AmBev e FlavorActiv, na Inglaterra. É consultora de empresas e professora de Gestão Sensorial na Indústria Cervejeira na Escuela Superior de Cerveza y Malta, em Madri. Já ouviu, no começo da carreira, perguntas como: "Uma jovem? Nesse ambiente?". Hoje é presidente da Associação Brasileira dos Profissionais em Cerveja e Malte, faz parte do grupo de jurados degustadores profissionais do World Beer Cup, nos Estados Unidos, e é membro do comitê internacional do Institute of Brewing & Distilling, na Inglaterra.
Segundo Cilene, um mestre cervejeiro, para ter perfil técnico, deve graduar-se em ciências exatas, como engenharia de alimentos, química ou de produção, para depois especializar-se. Existem cursos na área acadêmica, como mestrado em Tecnologia Cervejeira. "O processo é muito técnico, requer responsabilidade em toda a qualidade e quantidade do produto. Por isso, devemos reconhecer características químicas e biológicas na indústria cervejeira, em várias áreas, produtos e serviços."
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A cerveja pronta para o consumo; e a diversidade da cerveja brasileira oferecida pelo Bar Anhanguera. |
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Tanques de fermentação na Microcervejaria Nacional FT em São Paulo (SP); detalhe da cevada nas mãos do mestre cervejeiro Elvis. |
Os mestres cervejeiros atuam em diversas etapas da fabricação da cerveja. Primeiro, no controle de qualidade das matériasprimas, que são principalmente quatro: água, malte de cevada ou de trigo, lúpulo e leveduras. Depois, no acompanhamento, até chegar ao produto final, sempre de acordo com a linha da escola cervejeira em que atua. O mestre cervejeiro pode trabalhar também fabricando equipamentos que produzem a bebida.
ESCOLA DE... CERVEJA
Existem muitas combinações possíveis, mas basicamente as cervejas se dividem entre Velho e Novo Mundo. No Velho Mundo estão escolas de extrema importância, que orientam muitas das inovações, como a alemã, que é mais ortodoxa e respeita os princípios de pureza. Já a Belga, que é o oposto da alemã, extremamente inventiva, usa matérias-primas novas e inusitadas, como noz-moscada, cascas de laranja, frutas, essências. É fácil perceber que cada escola elege um ingrediente ou um estilo de produção como protagonista.
Na escola alemã o grão de malte é o protagonista. Na Belga, as leveduras. Na Inglesa, é o lúpulo que se destaca. Cada uma com uma personalidade igualmente interessante em sua medida. Para Matthias Reinold, descendente de alemães e mestre cervejeiro desde 1978, "em todos os países existem boas cervejas; não podemos afirmar que há cervejas melhores do que outras, mas existem países onde a variedade e a qualidade impressionam, como por exemplo a Alemanha e a Bélgica".
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