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GOIÁS
Pirenópolis: culinária antiga, preciosidades do nosso tempo

A cidade goiana oferece cardápio variado e produtos típicos que fazem o visitante mergulhar na tradição regional e lambuzar-se com as iguarias

TEXTO Cristiana Couto IMAGEM Guilherme Andrade

Fundada pelos bandeirantes no início do século XVIII, Pirenópolis é conhecida pela preservação e beleza de suas casas coloniais e por suas atrações naturais - são mais de 70 cachoeiras e piscinas de água cristalina, além de trilhas pelo Cerrado e um imenso parque paradisíaco, o dos Pireneus. Mas, para além das festividades folclóricas, como as cavalhadas - mais um bom motivo para atrair os turistas -, a charmosa cidade goiana, situada a 180 km da capital do País, pode orgulhar-se não apenas de seus filhos famosos (a dupla Zezé di Camargo e Luciano) como principalmente de sua comida.

Ao caminhar pelas ladeiras de pedras com luminárias antigas ou avançar alguns quilômetros além dos limites da pequena cidade (são cerca de 40 mil habitantes) encontra-se um cardápio variado de restaurantes, cachaçarias, bares e pousadas. Mas o menu que realmente vale a pena ser provado é o que inclui os ingredientes do Brasil Central e os pratos tradicionais da culinária do Centro-Oeste - alguns deles verdadeiros patrimônios gastronômicos.

Entre os produtos típicos da região estão o cajuzinho-do-cerrado, o pequi, a guariroba (palmito de sabor amargo) e a castanha de baru, de sabor delicado. Fruto do baruzeiro, espécie nativa do Cerrado, o baru está ameaçado de extinção devido à utilização da madeira desta árvore em construções. Das comidas tradicionais, o arroz com suã pode ser encontrado em restaurantes como o Lá em Casa, típico representante da cozinha de roça goiana. O prato, feito com a carne da parte inferior do lombo do porco, é servido num ambiente simples, em panela sobre fogão a lenha, ao lado de outras delícias, como galinhada com pequi.

No restaurante Pedreiras, sob o comando de Vanda Jaime, o farto bufê também oferece deliciosas iguarias da culinária de Goiás, como guariroba refogada, pamonha frita, chamada também de "pamonha de sal", e risoto do cerrado (feito com pequi, guariroba e baru). Como sobremesa, compota de figo verde, doce de laranja, ambrosia.

NO CALENDÁRIO OFICIAL
O mais badalado entre os restaurantes é o Le Bistrô. Com decoração moderninha - folhas de louro pelo chão e cadeiras cobertas de chita -, a casa é tradicional ponto de encontro de políticos brasilienses. A proprietária, Márcia Pinchemel, serve pratos contemporâneos e oferece bons vinhos, mas seu maior mérito é o de ter sido a idealizadora do Festival Gastronômico e Cultural da cidade. O evento, criado em 2003, já ganhou força e entrou para o calendário pirenopolino das festas oficiais, ao lado, por exemplo, das famosas cavalhadas, encenação tradicional que reproduz uma batalha entre cavaleiros cristãos e mouros.

A quarta edição do festival, que ocorreu em outubro do ano passado, foi uma ótima oportunidade para os turistas conhecerem a rica culinária tradicional da região - que tem um de seus poucos registros no livro Cozinha Goiana, de Bariani Ortencio. Numa espécie de feirinha montada próxima à igreja matriz (a Praça da Arte e Gula) foram dispostos estandes com as delícias locais e ministradas aulas com as cozinheiras e quituteiras da região.

A mais importante delas, Telma Lopes Machado, comanda a Fazenda Babilônia, um antigo engenho de açúcar da época da fundação da cidade. Depois de um passeio regado a história - por lá passou, por exemplo, a Coluna Prestes --, Telma serve um café-da-manhã colonial que é verdadeiro patrimônio da cozinha goiana. São pratos que antigamente faziam parte da alimentação matinal de fazendeiros e escravos: mané-pelado (uma espécie de bolo de mandioca ralada, com ovos, queijo e leite de coco), bolo de fubá de arroz (que demora seis dias para ficar pronto), porco na lata (conservado na gordura), bolinho da senzala (garapa com fubá, cravo e canela), pau-a-pique (confira receita ao final da reportagem) e matula de galinha (galinha caipira assada na palha do milho com ovos, toucinho e farinha de milho) são algumas das preciosidades saídas de seu fogão a lenha e servidas numa enorme mesa disposta na cozinha aberta para o quintal.

CAPRICHO À MESA E NAS CALÇADAS
Na Praça Arte e Gula ficam expostos os produtos artesanais do Vagafogo, um parque ecológico privado. Além de oferecer esportes de aventura, no local há um brunch com mais de 60 itens feitos a partir de produtos orgânicos e do Cerrado, como chutneys, geléias, frutas cristalizadas, pães e bolos. Também na praça estavam à mostra produtos das doceiras da região - que, entre tantos, preparam alfenins (massa de açúcar em formatos de flores e animais, de origem medieval árabe), doces de figo, laranja ou abóbora e as típicas compotas de cajuzinho e jiló.

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Edição 28 Junho / Julho / Agosto 2010
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