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Santa mistura Santa cultura

No bairro carioca de Santa Teresa, as pinceladas de Picasso integram-se com a arte da rua e a arquitetura colonial ganha ainda mais charme com a descontração dos moradores

TEXTO Bianca Pinto Lima IMAGEM Érico Hiller

Nas ladeiras centenárias de Santa Teresa, a arte se insinua pelas esquinas, vielas e becos. O bairro, ao mesmo tempo vibrante nas cores, estilos e formas, preserva um ar provinciano e pacato, distante do agito da segunda maior cidade brasileira. As ruas de paralelepípedo preservam o traçado original, assim como os imponentes casarões, ocupados por diversos moradores. Se descontração é palavra de ordem, o trabalho também é uma constante. A região, uma das mais turísticas do Rio de Janeiro, recebe visitantes durante todo o ano e se esforça para manter a fama de acolhedora.

A história e o nome do bairro estão ligados ao Convento de Santa Teresa. O prédio em estilo barroco foi erguido no século XVIII, no antigo Morro do Desterro, para abrigar a Ordem das Carmelitas Descalças. As religiosas ainda residem no local e inspiraram uma das atrações mais famosas do carnaval de rua da cidade: o bloco das Carmelitas. Segundo contam os moradores, homenagem a uma freira que fugia do convento para pular carnaval.

O ritmo do bairro acompanha o sobe-e-desce dos bondes, símbolo maior de Santa Teresa. Esses veículos começaram a circular na região em 1872 e até hoje realizam o trajeto que cruza a Lapa e chega ao Centro. De um amarelo vivo, com detalhes azuis, eles cortam as ruas sinuosas, como em uma cena do século passado. Os bancos, quase sempre lotados de turistas, também são ocupados pelos moradores, que aproveitam para cortar caminho. O passeio sai por R$ 0,60 e quem for em pé não precisa pagar a passagem.

A ARTE DOS RESTOS
O que em outros lugares é lixo, em Santa Teresa vira arte. É assim há vinte e dois anos na Rua Leopoldo Fróes, nº 15. Apesar do endereço, não se trata de uma casa ou prédio e sim de um bonde, no mesmo formato e cor do original, com a diferença de que permanece estacionado na calçada. O proprietário Getúlio Damado faz dele uma loja e aproveita de tudo: de controle remoto velho a embalagem de detergente. Com esses materiais, ele cria principalmente bonecos e robôs, que recebem um nome depois de prontos. "Esse é o princípio do mundo. Tudo na vida tem nome e eu tenho mania de personalizar as coisas", explica Getúlio, que após duas décadas de trabalho conquistou clientes nas principais cidades brasileiras.

Próximo ao Largo dos Guimarães, ponto central do bairro, encontra- se a La Vereda, loja inaugurada há oito anos pela argentina Maria Victória Matute, conhecida somente como Mavi. Passeando pelo Rio de Janeiro, ela descobriu Santa Teresa, gostou do clima e fez amigos. Quando voltou, decidiu ficar de vez e abrir a loja de artesanato brasileiro, pelo qual se diz apaixonada. Os objetos vêm de diversas partes do País e são feitos, em sua maioria, de material reaproveitado ou reciclado. Garrafas de vidro derretidas ganham formato de brincos e pingentes enquanto rolos de máquina fotográfica se transformam em peças de xadrez com incrível riqueza de detalhes.

Sem endereço fixo, uma variada gama de artistas e artesãos perambula com suas mercadorias pelas ruas de Santa, como é chamado carinhosamente o bairro. Anísio Couto veio da Bahia, encantou-se pelo Rio e decidiu ficar. Durante o dia, é possível encontrá-lo com alguns quadros embaixo do braço à procura de pessoas interessadas em sua arte naïf (caracterizada pelo uso de cores vivas e pelo retrato simplista do cotidiano). Próximo à estação do bonde, Wolverine, como é conhecido, vende pedras brasileiras e aceita posar para fotos com o intuito de incentivar o turismo no bairro.

O artista plástico Fernando Simões seguiu o caminho oposto: parou de pintar e abriu a própria casa aos visitantes. Ele e a mulher Carmem deixaram as antigas profissões, reformaram a casa e montaram uma pousada no formato Bed and Breakfast (quarto e café-da-manhã). Os visitantes podem escolher entre três quartos em estilo rústico, com direito a piscina, internet à vontade e café-da-manhã incluso - que é servido na mesa da família, onde todos comem juntos. "Recebemos muitos estudantes estrangeiros interessados na cultura brasileira", conta Fernando. A diária do casal sai por R$ 120,00 e a de solteiro por R$ 70,00.

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Edição 28 Junho / Julho / Agosto 2010
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