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Tradição, música e religião na Chapada dos Veadeiros

Vila Goiana de 250 habitantes recebe anualmente mais de 40 grupos de tradições populares, brasileiras e internacionais, para preservar e promover a cultura folclórica e de raiz

TEXTO Patrícia Malta de Alencar

f o T o s M a r C e Lo s C a r a n a r i / M i L a P i n H e i r o
Afro-descendentes do Sítio Histórico Kalunga entoam a sussa; índios camaiorá encenam suas tradições; e foliões da Caçada da Rainha tocam a curiosa onça.

O VII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, evento gratuito realizado pela Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, movimenta o nordeste goiano todo ano no mês de julho com muita música, dança, autos, teatro e folias de raízes brasileiras, lusas e africanas, povoadas por manifestações folclóricas e religiosas. Neste ano, o evento trouxe como destaque a valorização da cultura indígena e a participação inédita de grupos de tradições internacionais, além das recorrentes manifestações afro-brasileiras que o enriqueceram, como o jongo.

O pequeno povoado de São Jorge, com cerca de 250 habitantes, está situado no município de Alto Paraíso, em Goiás, a 220 quilômetros do Distrito Federal. É mais conhecido por hospedar os visitantes da Chapada dos Veadeiros, importante parque de preservação nacional que atrai muitos turistas ao Estado. O Encontro vem se consolidando na agenda cultural brasileira e marcando esse ponto geográfico não só pela beleza natural do cerrado, mas também pela riqueza de suas manifestações.

A sétima edição, realizada de 20 a 29 de julho, traduz o sucesso na busca da preservação e valorização dessas tradições que compõem a identidade brasileira, e que só são transmitidas de geração em geração por meio da fé religiosa. Representantes das etnias crahô, xerente, caiapó, caiamura, tucano, carajá, xavante, maxacali, tapuia e avá-canoeiro estiveram presentes para apresentar seus costumes e promover a diversidade cultural indígena, destaque da programação deste ano. O Estatuto do Índio, os Planos de Aceleração do Crescimento (PAC) que afetam terras protegidas, ecologia, biodiversidade, sustentabilidade, entre outros, foram temas abordados para discutir os interesses dos índios.

A pousada Aldeia da Lua, a 4 quilômetros da Vila São Jorge, abrigou as tribos convidadas e as rodas de prosa e oficinas. Cada grupo pôde mostrar ao público um pouco das tradições, com apresentações de rituais, cantos, idioma, comida e artesanato. Tudo isso ambientado em uma aldeia multiétnica construída a céu aberto.

fotos M ARCE LO SCARANARI / mi la p i nhe i r o
Encontro de culturas indígenas e afro-descendentes

Estiveram presentes ainda as tradicionais apresentações das folias do Centro-Oeste brasileiro e de comunidades convidadas pela Casa de Cultura. A maioria das cerimônias tem festas anuais espalhadas pelo Brasil, quando se apresentam em seus locais de origem, conforme cada tradição, e muitas estão ligadas ao calendário religioso, principalmente católico, marcadas pela devoção aos seus santos protetores. Cada dança tem suas peculiaridades e conta um pouco da história da comunidade, onde a tradição é transmitida a cada geração.

História e Fantasia
A Caçada da Rainha é uma manifestação da comunidade de Colinas do Sul (GO), que está sempre presente ao Encontro de Culturas. É um ritual católico, de louvação ao Divino Espírito Santo e a Nossa Senhora do Rosário. Mas existe também um mito de origem, segundo a foliona e pesquisadora Geronei da Silva Coelho, que relaciona a festa a uma homenagem à Princesa Isabel. Diz essa história que, após assinar a Lei Áurea abolindo a escravidão, a princesa teria fugido para o mato com medo da retaliação de d. Pedro II. O povo, então, saiu em seu encalço para festejar.

O ritual é realizado todo ano, sempre na primeira quinzena de julho. Os foliões "giram" (peregrinam) pela região oferecendo bênçãos, cantando e dançando em louvação aos santos protetores e sendo retribuídos, pelos abençoados, com bebida e hopedagem. Após vários dias de festa, ocorre, finalmente, a caçada à rainha, enquanto os outros foliões aguardam ouvindo o batuque, que é embalado por violas, pandeiros, caixas e onças - espécie de tambor que produz o inusitado ronco da onça. O "puxador" canta versos com temática do cerrado e do período aurífero e é seguido pelo público, que acompanha o ritual:

Lá vem o rei mais a rainha/O rei é seu, a rainha é minha; Paupereira, pau-pereira/É um pau de opinião/Todo pau floresce e cai/Só o pau-pereira não; Achei o ninho da cocá/Eita bicho danado pra botar.

fotos M ARCE LO SCARANARI / mi la p i nhe i r o
Índias caiapó preparam-se para um ritual

Ninguém fica de fora. "Não é uma festa à qual as pessoas assistem, mas sim da qual elas participam mesmo", explica Geronei. O Careta, um dos personagens da folia, é o encarregado do entrosamento com o público. Ao som do batuque, as dançarinas, chamadas batuqueiras, rodam equilibrando uma garrafa de bebida alcoólica na cabeça - no caso, licor - e servindo os foliões. Outro mito curioso explica que essa tradição servia para enganar os senhores e servir bebida aos negros, que eram proibidos de consumir álcool.

A importância dessa tradição vem sendo reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, que, além de estudar o arrolamento da Caçada como patrimônio cultural imaterial do Brasil, já produziu um livro e um documentário em DVD (Caçada da Rainha - A Festa da Fé) como tentativa de manter vivo o ritual.

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Edição 28 Junho / Julho / Agosto 2010
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