Em meio ao movimento de São Paulo, em uma simpática casa na zona sul, encontramos com o fotógrafo Araquém Alcântara. Cena pouco comum é vê-lo no escritório, em uma das maiores metrópoles do mundo, depois de conhecer seu trabalho pelas grandes florestas e parques nacionais. Ali, como ele mesmo nos explicou, não é realmente seu hábitat e funciona apenas como base para organizar seus muitos projetos.
Correndo contra o tempo e os desmatamentos que exterminam milhares de espécies ao longo dos anos, Araquém percorre outros milhares de quilômetros pelo País. A missão, segundo ele, se assemelha ao processo de produção de um poeta, que trabalha entre a profecia e a loucura.
Tudo começou há mais de trinta anos, quando o fotógrafo percebeu que faltavam registros da nossa natureza "fantástica". A identidade visual e a memória geográfica que passou a criar e catalogar transformaram a fotografia no Brasil. Um apaixonado por esta arte, Araquém acredita que ela seja "uma ponte que leva a compreender melhor a vida, um caminho de autoconhecimento". Foi com toda essa vontade que mergulhamos nesse universo de Araquém, que parece longínquo mas está tão perto: no cerne da natureza brasileira.
ELES INDICAM O CAMINHO
Rodeado "pelos grandes", como ele chama os pensadores brasileiros que leva a tiracolo nas viagens - Guimarães Rosa, Lima Barreto, Darcy Ribeiro, João Cabral de Melo Neto, Euclides da Cunha -, o fotógrafo nos ensina como sobreviver na mata em busca do momento único, de um vôo de um pássaro, de um salto da onça. "É obstinação total, perseverança. E o exercício da fotografia que faço tem que unir paciência e contemplação."
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| O trabalho de Araquém mostra as diversidades nacionais e retrata simples, porém grandiosos, detalhes das comunidades e da fauna brasileira. |
Hoje, acumula mais de 100 mil quilômetros percorridos pelo Brasil. Andanças que resultaram em 25 livros sobre temas ambientais, uma centena de projetos relacionados e prêmios nacionais e internacionais. Porém, depois de anos dedicados às matas nacionais, Araquém esperava mais do poder público e da população na defesa, principalmente, da região amazônica: "As mudanças não foram como meu idealismo esperava. Meu trabalho carrega a esperança de que o brasileiro humilde, que não tem voz, viva uma sociedade mais justa".
Para isso, realiza palestras e oficinas em que mostra por meio de suas fotos as belezas e a importância da preservação das matas. "Deveria haver uma imediata mobilização nacional." E brinca: "Falando assim, já me sinto numa tribuna, num discurso político, mas ele é necessário".
Com o objetivo de levar cada vez mais brasileiros a conhecer a fauna e a flora nacionais, Araquém organiza workshops in loco em que acompanha por trilhas e transmite aos participantes o sentimento de vivenciar a mata, ouvir os barulhos dos bichos, das águas: "Dentro de mim tem um Brasil, um Brasil feito de gente, de nomes e de lugares". Ao descrever as viagens, recorre a um vocabulário próprio, ou, por que não, desconhecido de quem vive nas regiões urbanas brasileiras: mamangá, picinguaba, pirarara, nomes de origem indígena que batizam espécies, regiões.
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