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A DISPUTA POR ESPRESSOS PERFEITOS

POR BIANCA PINTO LIMA

O T O S A N D R É A L B A N O
Baristas apresentam-se durante os três dias de competição. Nas pequenas taças, o melhor drinque da sexta edição. À direita, a vencedora do campeonato, Silvia Magalhães.

"Você tem quinze minutos", diz o mestre-de-cerimônias. Os ponteiros parecem girar mais rápido enquanto o barista prepara quatro espressos, quatro cappuccinos e quatro drinques de criação própria. Apesar da tensão, manter a elegância é fundamental, assim como um sorriso no rosto e freqüentes explicações do que vai servir. Não basta entregar as bebidas aos jurados, é preciso falar sobre o blend, revelar detalhes do sabor e dos ingredientes. Enquanto isso, os avaliadores agem como clientes exigentes, que desejam ser bem atendidos e provar cafés perfeitos. Um desafio e tanto para quem está do outro lado do balcão e almeja vencer o 6À Campeonato Brasileiro de Barista para garantir vaga no mundial do Japão, a ser realizado em julho. Acompanhamos os três dias de competição. Veja agora o que aconteceu por lá.

Nos dias 15, 16 e 17 de janeiro, a capital paulista recebeu os maiores especialistas no preparo de café do Brasil, profissionais que detêm total conhecimento sobre a bebida: da história aos tipos de grãos. A disputa, realizada no Centro de Eventos e Negócios de São Paulo, contou com baristas de diversos Estados, selecionados nas seis etapas regionais de 2006 e com presenças internacionais, como a do mexicano Jose Cleofas, juiz do World Barista Championship, e a da norte-americana Sherri Johns, diretora da Specialty Coffee Association of America.

Cada participante tinha apenas quinze minutos para preparar 12 bebidas, entre espressos, cappuccinos e drinques de autoria própria.

Durante esse período, dois juízes técnicos faziam avaliações desde a compactação do pó até a limpeza do maquinário, enquanto quatro juízes sensoriais julgavam sabor, aparência e criatividade das bebidas. Para Marco Suplicy, presidente da Associação Campeonato Brasileiro de Barista (ACBB), organizadora do evento, a melhora no nível técnico foi significativa. "Todos os profissionais que competiram eram extremamente qualificados e as etapas regionais foram fundamentais para essa evolução."

"TESOURO" GARANTE TRICAMPEONATO
Natural de Araçatuba, interior paulista, e filha de cafeicultores, Silvia Magalhães conquistou o primeiro lugar na competição pela terceira vez (2002 e 2003). A consultora do Octávio Cafés Especiais, que irá representar o Brasil no Japão, venceu com o inusitado drinque Tesouro: uma combinação de café, chocolate branco, caramelo, gelo, ovos nevados, limão e... ouro comestível. Segundo ela, o segredo da bebida é o mix de sensações: "Você sente primeiro a doçura, depois o sabor do café e na seqüência a refrescância do limão". O segundo e o terceiro lugares ficaram, respectivamente, com Priscila Souza e Yara Thais Castanho, ambas do Suplicy Cafés Especiais.

SEM ESTALOS
O ingrediente marcante do evento, presente em grande parte dos drinques de assinatura, foi o gengibre, que apareceu misturado com doce de abóbora, pimenta, damasco e até na forma de sorvete. Eleito o melhor da competição, o drinque de Yara Thais Castanho levava espresso, geléia de caqui com gengibre, queijo mascarpone (originário da Itália e de consistência cremosa), creme de leite e um toque de gengibre em pó. Já o do brasiliense Francisco Vasconcelos, da Cafeteria Eldorado, misturava a especiaria com sorvete de capim santo (planta usada para fins medicinais). Ele conta que a elaboração do drinque foi uma etapa demorada: "Não é nada de estalo. Para acertar a bebida fiz várias tentativas".

DE SABOR E VISUAL NOVOS
Duas novidades chamaram a atenção dos visitantes e mudaram um pouco a rotina do evento. Foram os campeonatos de Latte Art e Coffee in Good Spirits, que pela primeira vez ocorreram no Brasil e ficaram sob a coordenação de Sherri Johns - há 31 anos no mercado de cafés especiais. No Latte Art, o barista é avaliado pelos desenhos feitos com leite vaporizado e deve preparar dois macchiatos (uma dose de espresso, leite e cacau ou chocolate para decorar), dois caffè lattes (apenas uma dose de espresso e espuma de leite) e dois drinques de autoria. Já no Coffee in Good Spirits são exigidos dois irish coffees (uísque, açúcar, café e creme) e duas bebidas alcoólicas de assinatura à base de café. Mais dinâmicas, as novas disputas são feitas sob o formato de duelo, com apresentações simultâneas de dois baristas.

Com um movimento cuidadoso, surgem da espuma do leite frutas, animais, assinaturas e rosetas. "Os juízes avaliam a clareza e a simetria do desenho na xícara, além do sabor", explica a coordenadora Sherri. No Coffee in Good Spirits, os destaques são os malabarismos com garrafas e as misturas nada convencionais. Mas ela avisa:

"É preciso haver equilíbrio entre o café e a bebida alcoólica". Equilíbrio alcançado pelo primeiro colocado Fábio Ferreira, da Metal Pólo e Octávio Cafés Especiais, que comemorou ao lado do campeão no Latte Art Eder Ferreira, do Havanna Café. Ambos competirão no mundial de Los Angeles, que será realizado em agosto.

DIFICULDADES EXIGEM COOPERAÇÃO
Apesar do maior reconhecimento da profissão e da visível melhora técnica dos baristas brasileiros, grande parte deles ainda enfrenta dificuldades para competir. A falta de tempo para treinar e a pouca familiaridade com os equipamentos são algumas delas. "O Brasil ainda não tem muitas máquinas como a usada no campeonato. Em Brasília não tem nenhuma, eu só pude treinar com ela dois dias antes", diz Francisco Vasconcelos. Para o barista e consultor Jonathan Silva a saída é manter o espírito de união e fazer do evento uma festa. "Aqui troco informações com o meu concorrente sobre como fazer uma melhor extração e conheço drinques que posso usar em feiras, eventos ou cafeterias. Essa é nossa prioridade", diz.

BIANCA PINTO LIMA é repórter da Espresso e durante três dias acompanhou todos os passos dos baristas, dos treinamentos às apresentações. Quer ver mais? Acesse www.revistaespresso.com.br/tv

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Edição 28 Junho / Julho / Agosto 2010
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