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Mesa Brasilis

Reunimos Mara Salles, Norberto Pascoal e Saul Galvão para uma conversa sobre cozinha, café e vinho nacionais. O local: um restaurante típico brasileiro. O resultado: uma aula digna de figurar nos autos das refeições memoráveis

TEXTO Cristiana Couto
IMAGEM Carol Fontes


Foi um encontro e tanto. No começo de fevereiro, a Espresso reuniu três feras para um bate-papo sobre café, vinho e cozinha - brasileiros: Luís Norberto Pascoal, da Fazenda Daterra, um dos maiores conhecedores de cafés do País; Mara Salles, chef-proprietária do premiado restaurante Tordesilhas, pesquisadora incansável da cozinha brasileira e professora da Universidade Anhembi Morumbi; e Saul Galvão, repórter de gastronomia e de vinhos de O Estado de S. Paulo e colunista da revista Gula. Tão boa foi a conversa no Tordesilhas que Norberto pediu para repetir a ocasião. É com vocês, leitores. A nós, coube a deliciosa tarefa de reproduzir nestas páginas o encontro - regado a quitutes preparados com maestria por Mara e vinho escolhido por Saul. Tarefa também difícil, já que renderia muitas páginas mais. Portanto, vamos direto ao que interessa: uma boa prosa sobre coisas do Brasil.

Como anda a valorização do nosso produto por aqui?
SAUL - O vinho brasileiro não é e nem vai ser muito bom. Outro dia fiz uma matéria sobre dois vinhos nacionais excelentes, o Miolo Terroir e o Salton Desejo. Mas custam R$ 70,00. O Brasil tem vocação para espumantes. É a mesma coisa: em Champagne, o vinho é ruim, ácido, tem pouco açúcar. Isso para um vinho comum é um horror, mas para um espumante é bom. O vinho brasileiro vai ser sempre um produto de exceção.

MARA - Mas os espumantes não estão melhorando? SAUL - Estão, mas os restaurantes tratam muito mal o vinho, principalmente no que diz respeito ao preço.

MARA - E também em termos de serviço, não? SAUL - Sim, mas isso não é privilégio nosso, o mundo inteiro trata mal o vinho. Um espumante Salton, por exemplo, custa cerca de R$ 12,00, mas num restaurante, está por R$ 50,00.

MARA - Isso tem a ver com esse provincianismo de associar o espumante a uma coisa chique, de poucos. Essa cultura precisa acabar.

E a imagem do vinho nacional lá fora?
SAUL - Não há.

NORBERTO - Me lembro de ver o Marcus James nos grandes supermercados dos Estados Unidos. Era um vinho de preço baixo. Se tiver preço, você exporta. Agora sobre o espumante: se houver dinheiro e tecnologia, o Brasil pode ainda ser um grande exportador?

SAUL - Pode.

MARA -Você acha que tem terroir para produzi-lo?

SAUL - Tem.

MARA - E o espumante já está sinalizando isso, não? É uma bebida adequada ao nosso clima, ao nosso gosto, é festiva, é geladinha.

SAUL - O brasileiro adora bebericar, fica horas fazendo isso. O francês não toma duas cervejas.

MARA - Mas você sente que há uma evolução, de mercado, por exemplo?

SAUL - Sim, estamos bebendo mais. Agora não dá pra comparar Brasil com Chile e Argentina.

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Edição 28 Junho / Julho / Agosto 2010
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